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Brief (29-01680)

Carcavellos (Linha de Cascaes) –
18 de agosto de 1905

Meu muito prezado amigo

Em maio recebi com effeito a Memoria, tão interessante pelo conteudo, como esplendida pela impressão consagrada a Adolf Mussafia,1 a qual infelizmente, destinada a uma festa, veiu quasi a ser uma consagração funebre. Não pude então fazer mais que accusar a recepção da amical offerta em duas linhas dum postal, que pelo do meu amigo, que recebi com atraso por ha dias não ter ido a Lisboa, vejo não lhe ter chegado às mãos.

Tendo eu tentado tambem alguma coisa no dominio do estudo dos objectos e das palavras que os designam, essa memoria foi lida por mim com a maior attenção. Repassaram-me pela memoria os tempos da minha infancia em que roca, fuso, sarilho, dobadoura eram utensilios de quasi todas a[s] casa[s], cujas donas eram as primeiras (como minha mãe) a dar o exemplo, nos momentos de trabalho menos urgente, a fiar da roca ou a torcer o fio. Hoje esses utensilios vão-se tornando de cada vez mais raro e sem duvida foi bom o momento de lhe fazer o inventario.

A forma da fig. 50 é a da dobadoura mais vulgar entre nós, essa variante secundaria. A travessa superior entre os dois braços da cruz tem com effeito o caso que lhe attribue. A forma 57 introduziu-se em Portugal nos ultimos tempos. Eu tenho um exemplar fabricado segundo um modelo posto à venda em Lisboa.

Como a dobadoura se tornou aqui rara pela mão apontada a p. 22, quando accidentalmente se torna necessario dobar, empregam-se as mãos, e pode então repetir-se a scena dos amantes ou noivos a que o meu amigo se refere.

Publicou-se ha pouco o 5o. fasciculo da Portugalia,2 que se suppunha morta. Traz boas contribuições para o conhecimento da technica popular portuguesa e archeologia.

Os meus trabalhos escolare[s], de cada vez mais absorventes, em virtude da ultima reforma no Curso superior de lettras e pouca saude deixam-me pouquissimo tempo para dar a lume, com as modificações exigidas por novas publicações, materiaes accumulados durante longo tempo. Envio um insignificante estudo pedagogico,3 publicado ha ja 3 annos, mas de que só agora me deram separata e trato de fazer imprimir lentamente alguns outros trabalhos do mesmo dominio, não porque a minha nação esteja disposta a acceitar as minhas ideias, ma[s] porque creio cumprir o meu dever dizendo-lhe qual o caminho que entendo ser o da educação em Portugal, apesar de em numerosas conferencias e artigos espalhados em periodicos sobre a materia ter conseguido nas melhores circumstancias ser classificado d´ideologo e nas peores de cretino, porque os meus compatriotas são por vezes em extremo amaveis.

Creia-me sempre
amo. de VEx.a
mto grato

F. Adolpho Coelho.


[1] Adolf Mussafia (1835-1905) korrespondierte ebenfalls mit Schuchardt [Korrespondenzpartner: 1244]. Das erwähnte Werk ist: Schuchardt, Hugo. 1905. Hugo Schuchardt an Adolf Mussafia. Graz : Leuschner & Lubensky. [Archiv-/Breviernummern: 480].

[2] Die Zeitschrift Portugalia: materiaes para o estudo do povo portuguez wurde zwischen 1899 und 1908 von Ricardo Severo herausgegeben.

[3] Es liegen bis jetzt keine Informationen über dieses Werk vor.