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Brief (23-01674)

Lisboa, 6 de dez.o de 1888

Meu amigo,

Sinto deveras o seu incommodo, e estimo que breve delle se restabeleça.

Muito me obsequiaria se, em qualquer momento opportuno, me aportasse assim alguma infidelidade mais saliente da minha versão do Werther1; de uma sei eu e flagrante: é ter traduzido leichtsinnig por estouvado, em vez de leve, atendo-me ao significado usual do adj. Só depois de impresso o livro vi numa edição do texto que o sorriso de Lotte havia sido leve, não leviano, o que francamente me espantara.

Tenho lido com o maior interesse o Slawo-Deutsches,2 que ainda não conclui a preceito, comquanto o haja percorrido todo já, de relance. As suas ponderações acerca das tenues k, t, p são importantes: eu sei, porém que as minhas explosivas surdas em português não são aspiradas senão quando, postonicas, estão seguidas das vogaes ciciadas ę, ų, ių, por exemplo em pote, gato, patio – (póťę, gáťų, paťių), e sobre esse facto apperecerá no proximo n.o da “Revista Lusitana”3 um artigo meu. Mas, por outra parte, conheço que, independente do ponto de articulação ser mais recuado, as minhas explosivas surdas francesas são mais energicas, porque me habituei cedo a differençá-las das portuguesas, e que todavia não são aspiradas; mais energicas tambem pronuncio eu as sonoras g, d, b em francês, do que o faço em português. Tem-me sido impossivel encontrar por aqui o “Estudo breve”, mas não desespéro por emquanto. Tam depressa o possa alcançar, remetter-lh´o hei.

Vamos agora ao fanão. Nem nos lexicologos modernos, nem nos antigos acho a etymologia do vocábulo. Não creio que fôsse jámais corrente no reino qualquer moeda com aquele nome. Bluteau (Vocabulario Portuguez-Latino4, sub. voc. fanam) diz:«moëda pequena de ouro buxo, que corre na Ethiopia.« «Sessenta moedas de ouro, o que chamão fanoens, cada hum dos quaes pode valer da nossa moëda vinte reaes. João de Barros na Decad. I. pag. 183» ”2 centos mil Fanoeno da renda cada ”anno, que valem na nossa moeda 400. „cruzados» Lucena, Vida do S. Xavier, 92, col. I

Fanão. Quilate. Na India os Rubîs, X Saphiras se vendem por fanoens, que são quilates.» Santa Rosa de Viterbo não menciona o termo, e a fallar a verdade elle não tem aspecto de português.

Numa publicação da Ac. Real das Sciencias de Lisboa5, que sem duvida conhece, nem o nosso vocabulo, em tres passos que lhe vou transcrever, e que o indice della aponta.

A publicação a que me refiro é a seguinte:

Subsidios para a Historia da India Portuguesa6 | publicadas | de ordem da Classe de Sciencias Moraes Politicas e Bellas Lettras | da Ac. R | e sob a direcção | de Rodrigo José de Lima Felner | etc | Lisboa, Typ. da Ac. R MDCCCLXVIII. Contém a publicação os seguintes ineditos: I O livro de pesos, medidas e moedas, por Antonio Nunes – II Tombo do Estado da India, por Simão Botelho – III Lembranças das cousas da India em 1525 – Seguem as citações que indiquei.7


[1] Goethe, Johann Wolfgang von. 1774. Die Leiden des jungen Werther. Leipzig: Weygandsche Buchhandlung.

[2] Schuchardt, Hugo. 1884. Dem Herrn Franz von Miklosich zum 20. November 1883. Slawo-deutsches und Slawo-italienisches. Graz : Leuschner & Lubensky. [Archiv-/Breviernummer: 160].

[3] Die Zeitschrift Revista Lusitana: Archivo de Estudos Philologicos e Ethnologicos relativos a Portugal wurde 1887 von José Leite de Vasconcelos gegründet.

[4] Bluteau, Rafael. 1728. Vocabulario Portuguez e Latino. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus.

[5] Academia Real das Ciências de Lisboa.

[6] Felner, Rodrigo José de Lima. 1868. Subsidios para a Historia da India Portuguesa. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias.

[7] Der Brief bricht hier ab.