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Brief (07-01658)

4/2/84

Meu amigo

Espero da sua bondade uma desculpa para a minha longa demora no agradecimento dos seus Kreolische Studien (I-V)1 e o estudo sobre a lingua de Benguela2, assim como de alguns artigos avulsos. A minha vida tem sido atormentada por doença e o meio social em que vivo é dos menos proprios para estudos serios. Quiz ver se a minha actividade poderia ser aproveitada n´outra direcção – na pedagogia; infelizmente parece-me que não me espera aqui grande exito. Em Portugal quem quizer viver carece de achar bom tudo que se faz e incensar as autoridades litterarias enstituidas; o meu mal vem de não poder fazel-o. Se visse o que aqui se escreve contra mim, pasmaria por certo. Um facto mostrar-lhe-ha o estado de barbaries em que está o paiz, apesar de alguns esforços isolados.

Um sujeito meio doido, meio charlatão affirma ter emfim decífrado as inscripções peninsulares em lettras desconhecidas, lançando por terra os trabalhos de todos os archeologos anteriores; ora essas inscripções são, diz elle, escripto em portuguez e hespanhol, com poucas differenças do estado actual d´estas linguas. Assim o latim e o hespanhol existiam antes da invasão romana, etc. Segue uma serie de dislates historicos de grande calibre. Tudo isso será provado n´uma obra volumosa que conterá prodigiosas revelações historicas. O homem pede ao governo um subsidio para a publicação; o governo consulta a Academia das Scièncias e classe de historia e lettras responde favoravelmente em relação á pretensão; o presidente d´essa classe escreve uma carta (publicada) ao archeologo dizendo-lhe estar convencido que elle achou a chave dos velhos alphabetos ibericos. Eis que os jornaes proclamam genio o homem, lhe chamam um novo Galileo, que lança por terra tudo o que os sabios allemães, francezes, etc. imaginavam ter descoberto. Ao mesmo tempo outros jornaes dirigem-me amabilidades como cretino, idiota, etc. N´este naufragio do bem senso não vejo o que poderá salvar-se. O meu amigo imaginará se eu tenho bons estimulos para trabalhar. Todavia estudo sempre. Do creolo não tenho podido occupar-me. Só hontem é que vi os Idiomes negro-aryen,3 etc. do L. Adam. Mas tenciono apesar de tudo fazer dos seus Kreolische Studien e do opusculo do L. Adam objecto de um artigo para o jornal de Techmer. Entretanto espero que continue a honrar-me com o offerecimento dos seus estudos. Só do extranjeiro posso receber estimulo e se esse me falta, nada mais escreverei.

Creia-me
Seu am.o dedicado

F. Adolpho Coelho


[1] Schuchardts Kreolische Studien I bis IX [Archiv-/Breviernummern: 132; 133; 147; 148; 149; 150; 210; 211; 232] wurden zwischen 1882 und 1890 veröffentlicht. Die unveröffentlichte Arbeit Kreolische Studien X aus dem Nachlass wurde 1987 von Wolfgang Viereck herausgegeben: Schuchardt, Hugo. 1987. 'Kreolische Studien X: Über das Negerenglische in Westafrika. Aus dem Nachlaß herausgegeben mit Einleitungen und Anmerkungen von Wolfgang Viereck'. In Anglia. Zeitschrift für englische Philologie Band 105, 1/2: 2-27. [Archiv-/Breviernummern: noch nicht angegeben].

[2] Schuchardt, Hugo. 1883. 'Ueber die Benguelasprache'. In Sitzungsberichte der philosophisch-historischen Classe der Kaiserlichen Akademie der Wissenschaften. Wien 103: 21-32. [Archiv-/Breviernummer: 151].

[3] Adam, Lucien. 1883. Les Idiomes Negro-Aryen et Maleo-Aryen: Essai de Hybridologie Linguistique. Paris: Maisonneuve.