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José Leite de Vasconcelos

Die Korrespondenz zwischen José Leite de Vasconcellos und Hugo Schuchardt wurde von Ivo Castro und Enrique Rodrigues-Moura bearbeitet, kommentiert und eingeleitet.

Für die Erstellung der Webedition wird Belma Mahmutovic herzlich gedankt.

Die Edition bzw. einzelne Briefe sind zu zitieren als:

Castro, Ivo & Enrique Rodrigues-Moura. 2016. 'Die Korrespondenz zwischen José Leite de Vasconcellos und Hugo Schuchardt'. In Bernhard Hurch (Hg.) (2007-). Hugo Schuchardt Archiv. Webedition verfügbar unter: http://schuchardt.uni-graz.at/id/letters/2017, abgerufen am 18.09.2020

José Leite de Vasconcelos

Bedeutung

Leite de Vasconcelos carteou-se com Hugo Schuchardt durante quarenta e quatro anos, de 1882 até 1926, um ano antes da morte do grande linguista alemão. Sessenta cartas deste sobrevivem em Lisboa, no arquivo da correspondência passiva leitiana do Museu Nacional de Arqueologia, fundado por Leite; correspondem-lhes quarenta e oito enviadas por Leite, que se acham hoje depositadas na Secção de Colecções Especiais da Biblioteca da Universidade de Graz, onde Schuchardt ensinou de 1876 até 1900[1]. Nestes dois volumosos núcleos faltam algumas cartas que se perderam, mas de que encontramos, nas remanescentes, eco suficiente para reconstituir os vazios e elencar os domínios temáticos que percorreram durante este diálogo de uma vida inteira. Sem surpresa, encontramos aí algumas presenças constantes na obra de ambos: a dialectologia e a crioulística (que Leite, em verdade, não destrinçava a não ser geograficamente), as línguas primitivas ibéricas, a epigrafia e a zona de contacto entre a etnografia e a linguística que ficaria conhecida, graças sobretudo a Schuchardt, como o método das «Coisas e Palavras».

A iniciativa da correspondência deveu-se a Schuchardt, em 1882, com uma consulta bibliográfica sobre o mirandês, cuja descoberta por Leite era recente. Mas logo começaram a cruzar-se opiniões, e sobretudo pedidos de informação, sobre crioulos e o português ultramarino. Schuchardt publicava então – anos de 1880 – os seus ensaios sobre crioulos e procurava fontes escritas ou humanas que alimentassem as suas pesquisas, que eram sedentárias no que toca a línguas asiáticas[2]. Leite, além de lhe angariar materiais desse tipo, retribuía com os opúsculos dialectais que estava publicando; o que mais apreciava na obra de Schuchardt era, precisamente, a série de Beiträge crioulos, como salientaria, aliás, no parecer com que propôs, em 1896, a eleição do colega alemão para sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa[3]. E servia de ponte para conhecimentos comuns, Carolina Michaëlis, Adolfo Coelho, Gonçalves Viana, quando não respondiam às perguntas de Schuchardt com a velocidade desejada. Em 1887, este anuncia o propósito de estudar o vasconço; mas os temas recorrentes nas cartas continuam a ser os anteriores, com um pouco de romanceiro e de etimologias avulsas, e o grande domínio das antiguidades ibéricas tarda a ganhar corpo: apenas em 1891 Leite reage (se não faltam cartas pelo meio), interrogando sobre a etimologia de deuses lusitanos, Endovellico, etc.; muito depois, em 1898, Schuchardt desculpa-se por não lhe enviar os seus estudos bascos, convencido de que não lhe interessarão, já que nada contêm de românico. Em 1900, durante uma longa viagem por vários países europeus, Leite visita Graz e conhece pessoalmente Schuchardt; seria o seu único encontro, precedido por uma curiosa epístola em verso, em que Leite fazia o auto-retrato para ser mais facilmente reconhecido na gare de caminho de ferro. O diálogo prossegue depois dessa visita, por vezes com grandes intervalos, e correndo as linhas habituais da troca de notícias e perguntas sobre etimologias, dialectos e crioulos, e ultimamente questões etnográficas (técnicas de pesca, fusos e fiação), alimentadas em parte pela montagem do Museu que Leite criara em Belém. A questão basca ressurgiria com estrépito em 1905, após o envio do vol. II das Religiões da Lusitânia: Schuchardt não gostou da maneira como Leite representa aí as suas posições, a par de outros autores que desconsiderava, e desdobra-se em protestos que Leite tenta acalmar, mas com rara infelicidade, pois, na mesma carta em que serena as razões de Schuchardt, introduz no final um assunto novo que desencadearia nova explosão, bem mais grave, por parte do mestre de Graz. Leite lembra-lhe um manuscrito do séc. XVII, em malaio-português, que vira em sua casa, e pede-lhe uma cópia completa para seu uso pessoal. Os comentários de Schuchardt à impropriedade desse pedido, que estende ao carácter de quem o fazia, constituem o ponto mais baixo de toda a correspondência. Carolina Michaëlis, na qualidade de amiga de ambos, foi solicitada a intervir como pacificadora, no que parece ter sido bem sucedida, pois ao fim de alguns meses as cartas retomam tons de amabilidade, porventura forçada, e não evitam regressar a tópicos melindrosos como a celticidade ou iberismo das origens peninsulares e questões etimológicas muito técnicas, que a bem dizer constituem a derradeira fase substancial da correspondência.

Esta decorre em português inicialmente e até 1894, altura em que Schuchardt decide poupar-se ao trabalho de redigir em língua com que apenas tinha familiaridade literária e filológica. Segundo Weiss (1981, 206), a partir dos anos 90 passou a escrever cartas apenas em alemão e francês. Perdem-se assim as suas saborosas composições, mas ganha-se uma dimensão infratextual nas marcas marginais da leitura que Leite faz das cartas alemãs, em que se cruzam traduções de termos difíceis com comentários a afirmações mais polémicas. Procuramos, nesta edição, registar em rodapé essas anotações de Leite que, talvez mais que as respostas enviadas, denotam as suas reacções mais íntimas.

Tem esse mesmo objectivo a reprodução de acidentes de escrita (erros, emendas e substituições), que prolonga o espírito documental da transcrição diplomática usada nesta edição: embora decifre o manuscrito e o verta para caracteres tipográficos modernos, deixa intactos todos os demais aspectos do texto e da página, incluindo erros, e procura distinguir o antes e o depois das emendas, para que o leitor fique com a noção do modo como evoluiu o pensamento do autor durante a génese do seu texto.

Esta intenção materializa-se em algumas convenções gráficas:

a) as palavras riscadas são representadas com um traço que as atravessa longitudinalmente; assim, adonde se vendem significa que a frase adonde se acham foi substituida por adonde se vendem;

b) as palavras de decifração dubitada são precedidas de asterisco (*); as palavras indecifradas, por dificuldade de leitura ou defeito da página, são substituídas pela crux desperationis (†);

c) as palavras adicionadas na entrelinha vão entre parênteses rectos [ ], com uma seta indicando a posição da entrelinha: superior [­ ] ou inferior [¯ ];

d) de modo geral, são mantidas as abreviaturas, os realces (sublinhados, aspas, etc.), as maiúsculas, a pontuação e a paginação, bem como as variações de uso entre os autores, sem regularização (com uma excepção: o uso do itálico em títulos, que aliás deu motivo a uma pequena discussão entre ambos);

e) cada carta inicia nova página; quando o documento original ocupa várias páginas, estas são identificadas por meio de numeração crescente inserida no corpo da transcrição entre parênteses rectos; ex: [2], [3], etc.;

f) as cartas são identificadas, quanto à autoria, pelas siglas HS ou LV, seguidas de número de ordem, estabelecida por cronologia; a cota de cada carta no seu arquivo nem sempre coincide com aquela ordenação, pois a edição permitiu corrigir algumas datações arquivísticas;

g) há três tipos de notas: as notas autorais, adicionadas pelo autor à sua própria carta; as anotações marginais à carta do outro, especialmente frequentes na mão de Leite; e as notas editoriais, contendo comentários e esclarecimentos sobre pontos afirmados ou identificação bibliográfica de obras que são mencionadas abreviadamente. As notas autorais são mantidas no corpo da carta, após a assinatura, enquanto as restantes, marginalia e notas editoriais, vão em rodapé.

Quando a informação está disponível, indica-se em primeiro lugar o local e a data de redação e expedição da correspodência. Em segundo lugar o local e a data da sua receção, informação prestada geralmente pelos carimbos de correio.

Bibliografia:

Castro, Ivo e Enrique Rodrigues-Moura (2003). «Auto-retrato de Leite de Vasconcelos». Razões e Emoção. Miscelânea de estudos em homenagem a Maria Helena Mira Mateus, org. Ivo Castro e Inês Duarte. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, I, 197-202.

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De Bragança, D. Carlos (1898). A pesca do atum no Algarve em 1898, I.

De Sá Nogueira Pinto de Balsemão, Eduardo Augusto (1882). Os portuguezes no Oriente: feitos gloriosos praticados pelos portuguezes no Oriente, Nova Goa, Imprensa Nacional.

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Leite de Vasconcelos, José (1884). «Dialectos Beirões», I- VI, Revista de Estudos Livres, II.

Leite de Vasconcelos, José (1884). Flores Mirandezas, Porto.

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[1] No espólio de Schuchardt encontram-se cartas de outros seus correspondentes portugueses, de entre os quais se destacam José do Canto (de 1880 a 1896), Adolfo Coelho (1873-1905), Sebastião Dalgado (1915-1920), Gonçalves Viana (1888-1909), Carolina Michaëlis (1875-1906); cf. Brigitta Weiss, Hugo Schuchardt y el mundo hispánico, Thesaurus, Boletín del Instituto Caro y Cuervo, XXXVI. 2, 1981, 209-212. Ver Hugo Schuchardt Archiv em http://schuchardt.uni-graz.at/. A correspondência activa e passiva com D. Carolina foi publicada por Bernhard Hurch (2009) e a passiva com Adolfo Coelho foi publicada por Sílvio Moreira de Sousa (2007).

[2] Algumas separatas que Schuchardt enviava a correspondentes portugueses traziam, colada na capa, uma tira tendo impresso o seguinte pedido circular: «Ficarei muito grato a todos os que dignarem-se enviar-me specimens dos dialectos crioulos e esclarecimentos sobre as modificações da lingua portugueza que acham-se na Africa e Asia. || Dr. Hugo Schuchardt, Graz (Austria), || Elisabethstr. 6.»

[3] Revista Lusitana, IV, 1896, 278; Opúsculos IV, II, 1919, 1221.