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Brief (07-03881)

Lisboa, 26 de Junho de 1893

Excellentissimo Amigo e Snr.

Quanto tempo há já que sou devedor de resposta á prezada carta, que o meu bom Amigo me dirigiu em 30 de janeiro deste Anno. Devêra logo ter respondido eu, agradecendo-a, satisfazendo á pregunta [sic] que me fazia, e confessando-me penhorado pela remessa de tantos escritos de mão de mestre, que me tem enviado.1

Sabe o meu Amigo porque o não fiz immediatamente? Vou dizê-lo: no remate da sua carta promettia-me que em breve (tarde para o meu desejo!) outras letras suas viriam, e estas em português; e disse comigo: “pois, senhor, aguardá-las hei, e responderei a tudo duma vez, como souber e puder. As promettidas e suspiradas letras, porém não vieram, e ainda mal! Força é que eu cumpra, emquanto [sic] não veem, o grato dever de satisfazer ás primeiras.

Principiarei por dizer ao Meu Amigo o que sei, por informação pessoal, acêrca do planeado trabalho de Leite de Vasconcellos sôbre o dialecto crioulo de Macau.2 Eu creio que o meu amigo tem razão no que diz com referencia a ter sido, ou não, A. Coelho,3 quem primeiro dispertou [sic] a attenção dos glottologos, convocando-a para o estudo scientifico dos dialectos crioulos: nessa questão de primarius, a decisão é sempre melindrosa; e como eu estou convencido de que Leite de Vasconcellos é incapaz, por lisonja, carolice patriotica (chauvinisme) ou desamor da verdade, de fazer aquella affirmativa, não posso deixar de attribuí-la ou a lapso de memoria, ou a convicção profunda de que os trabalhos primeiros de Coelho sobre esse objecto foram, no seu ponto de vista, decisivos e de fazer epoca.4 Conforme o proprio Leite de Vasconcellos me informa, o trabalho delle sôbre o crioulo macaísta não satisfará ao que o meu amigo expõe: conterá, é certo, textos, phonologia, morphologia, syntaxe, lexico, não porém eine eingehende Erklärung aller dieser Thatsachen; será, pois, mais uma contribuição, um subsidio, ou subsidios, valiosos, não há que duvidar, basta a competencia indisputavel de quem os escreve e collige -, não todavia um tratado, uma completa monographia dêsse objecto; para a fazer tal, fôra necessario um estudo especial e demorado, que Leite de Vasc. não emprehenderá agora, não porque lhe falleça a competencia e capacidade para elle, mas porque tem o espirito e o tempo absorvidos por outra obra, que projecta e que conta publicar em breve, sobre a religião e cultu lusitanos anteriores ao dominio romano, ou coevos dêste.5

Li com o maior interêsse a these que me fez o favor de enviar, intitulada [sic] “Der mehrzielige Frage- und Relativsatz6 ____ e como a pág. 21 vejo uma interrogação com referencia ao português, vou dizer-lhe o que sei do uso hodierno, reservando-me para fazê-lo opportunamente com respeito aos usos antigos desta lingua, o que não estarei habilitado a descrever agora, sem previo preparo adequado a esse fim, e que tem de ser laborioso.

As observações pessoais minhas vão em seguida, e o meu Amigo as apreciará e utilizirá [sic], como lh’o merecerem mais.

E nisto me despeço, esperando sempre as suas lettras

Amigo e obrigadissimo

Aniceto dos Reis Gonçalves Vianna

Preguntas [sic] complexas em português

Orações interrogativas ou relativas que as represtam

Principío enunciando os differentes casos de uma interrogação, em citar aquelles conceituosos versos de Andrade Caminha:7

Seis cousas sempre tu vê

Quando fallares te mando:

De quem fallas, onde e o quê,

E a quem, e como, e quando.8

Pode numa só oração complexa a lingua portuguesa incluir mais de uma destas perguntas, de sorte que a resposta haja de ser igualmente complexa? No uso actual não me occorre um só exemplo frisante, que corresponda, não digo já aos esclavonicos que vejo citados no opúsculo (para os hungaros falta me em absoluto a competencia), mas nem mesmo aos ingleses ou sequer aos castelhanos, que ainda assim, não são na sua maioria triviaes.

Assim as phrases castelhanas citadas não poderiam ser traduzidas, em português de hoje, á letra:

Con una espada en la mano salga a reñir conmigo, y veremos quién mata a quien: De espada em punho saia a contender commigo, e veremos qual é (ou quem é) que mata o outro.

Dorotea es discreta, Felipa es boba, ¿cuál puede engañar á cuál?: Dorothéa é assisada, Filippa é tonta; qual é a que pode enganar a outra?

en fin, doncella la quise: ¿quién, decid, agravia á quien: donzella a quis: quem, dizei, agrava (offende) o outro? (melhor) qual de nós offende o outro?

justo Dios, yo no sé en este belén, quien de ellos engaña á quien... ó si me engañan los dos: justo Deus! eu não sei nesta tramoia qual delles engana o outro, ou se a mim ambos me enganam.

te he de pegar. ¡Mire quién le pega á quien! Bato-te. Veremos quem dá, e quem leva!

es un pícaro. - ¡Quién le dice pícaro a quien! é um patice. Olha quem falla!

¿quién copia á quien? ¿los gallegos á los andaluces ó viceversa? Quaes são os que arremedam os outros, os gallegos aos andaluzes, ou ás avessas?

Como se vê, nunca a pregunta [sic] é complexa em português, e a resposta tem de ser uma só, ou duas separadas, que no ultimo caso se excluem mutuamente.

Ora veja agora o meu amigo se as seguintes orações entram na categoria das que cita:

I Quem fez estas casas? – Quem fez o quê?

Resposta – Não ouviu bem: quem fez estas casa? – Replica: Ah! as casas. Foi meu pae.

II Quem disse isso ao tio? – Quem disse isso a quem? – Ao tio – Ah! Foi a mulher.

III Foi o senhor que disse aquillo – Fui eu que disse o quê, se nem la estava!

IV Quem pôs este livro aqui? – Quem diz quem (isto é. o senhor mesmo)

Estas duas ultimas parece que bem cabem na these.

Remato agora tambem com versos, mas estes são modernos e teem sua graça.

Amigo, como tu queres

Fazer preguntas [sic] sem fim,

Se á minha casa vieres,

Pregunta [sic] quanto quiseres,

Mas não preguntes [sic] por mim.

Phrases analogas exclamativas são usuaes, mas na lingua litteraria; por exemplo: de que alturas em que abysmo vieste caír [sic]! que corresponde bem á inglesa (p. 19) into what pity thou seest / from what height fall’n.

Complexas, todavia, são ainda as interrogações exclamativas vulgares: Quem sabe onde irá morrer?! – Quem sabe o que está para lhe acontecer?!

Gonç. Vianna


[1] Es liegen keine Informationen vor.

[2] Vasconcelos, José Leite de. 1892. Sur le dialecte portugais de Macao: exposé d'un mémoire destiné à la 10ème session du Congrès International des Orientalistes. Lissabon: Imprensa Nacional.

[3] Adolfo Coelho (1847-1919) korrespondierte ebenfalls mit Schuchardt [Korrespondenzpartner: 302].

[4] vgl. Schuchardts Aussagen zu diesem Thema in der Rezension von Brito (Schuchardt 1889: 453).

[5] Vermutlich wird folgendes Werk gemeint: Vasconcelos, José Leite de. 1897-1913. Religiões da Lusitania na parte que principalmente se refere a Portugal. Lissabon: Imprensa Nacional.

[6] Diese These wurde später veröffentlicht: Schuchardt, Hugo. 1893. 'Der mehrzielige Frage- und Relativsatz'. In Analecta Graeciensia: Festschrift zur 42. Versammlung deutscher Philologen und Schulmänner zu Wien Pfingsten 1893 :195-217.

[7] Pêro “Pedro“ de Andrade Caminha (1529-1589) war ein portugiesischer Dichter.

[8] Diese Verse wurden von Don João Manuel geschrieben und sie wurden im folgenden Werk veröffentlicht: Resende, Garcia de (ed.). 1516. Cancioneiro geral: cum preuilegio. Almeirim/Lissabon: Hermão de Campos (Hermann von Kempen; Hermão de Kempis).