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Brief (02-03876)

Lisboa, 27 de agosto de 1888
R. do Carrião, 21, 3.º d.º

Ex.mo Amigo e Senhor

Recebi penhoradissimo a sua carta de 19, a cujos pontos principaes procurarei satisfazer. Respondi em tempo a uma carta e dois bilhetes postaes com que me obsequiou ha annos; é possivel que então ou depois se haja extraviado pergunta ou resposta, e por isso registo esta agora.

A pronunciação do t açoriano depois de i oral ou nasal, a que me refiro p. 226 da Revista Lusitana,1 é tal qual a ouvi a Amanda Furtado,2 e o modo de a produzir, como o descrevo, é resultado de conferencia com o mesmo chocado naturalista. No entanto, tem o Meu Amigo muita razão com referencia aos dois pontos de contacto simultaneos em uma explosiva: é facto que um delles, o posterior fica inutil; é facto porem egualmente que a superficie superior da língua (blade) toca nos dois pontos indicados para produzir-se a tal articulação caracteristica do t, e que os toca simultaneamente. O que me parece portanto é que o 2º contacto, o posterior, é resultado da posição exigida para a lingua na articulação verdadeira, na anterior, que produz a occlusão (arrêt, stop, verschluss), e que é o descerrar desta pela expulsão do ar o que dá o peculiar effeito acustico da consoante indicada. Effectivamente tentei expressá-la descerrando a occlusão guttural: consegui-o sem grande modificação na impressão acustica. O que posso affiançar é que em tal articulação não ha o mouillement que differença as palatalizadas das linguaes, em russo, por exemplo, isto é ms de mz. Terei occasião de fazer mais experiencias em um Açoriano, e o resultado communicá-lo hei ao meu amigo, ou apparecerá na ‘Revista Lusitana‘, se merecer a pena que alli figure essa questão, que para muitos parecerá minuscula. Tenho actualmente os seus Kreolische Studien todos, porque completei mandando-os vir os que me faltavam; os outros bem sabe q. os devo a sua amabilidade e em muito os aprecio. Hão de servir a Coelho3 ou a José Leite de Vasconcellos,4 com mais outros subsidios de menor valor para estudo geral que será publicado provavelmente na Revista; alli encontrará presumivelmente resposta a alguns dos quesitos propostos. Não tenho a ‘Revista‘5 de Gröber,6 nem conheço actualmente quem a haja recebido até o presente com regularidade; o que della conheço é antigo já. Muito e muito me obsequiará sempre que dispense em meu favor qualquer separata de trabalho seu, attinente a línguas romanicas ou dialectos dellas. Terá visto pela minha noticia7 inserta no n.º 3 da Rev. Lus.8 acêrca do trabalho de Munthe9 (que erradamente saiu sempre impresso Muntke) sobre o asturiano, que me inclino agora á sua opinião a respeito do n guttural final de muitos falares hispanhoes. Infelizmente só obtive duas separatas da noticia mencionada, uma das quaes remetti a Munthe; tampouco as obtive da V.ª parte do meu artigo sobre o Fallar de Rio Frio;10 de outro modo, ter-lh’as-ia enviado egualmente.

É de facto correntissimo em português vulgar, pelo menos no sul, a associação syntactica do adverbio de modo assim com os de logar, aqui, ahi, alli, com o intuito de melhor indicar o logar: é sabido que aqui alli se differençam de , em se referirem a sitio determinado e que se fixa ou indica; com o adverbio assim, aponta-se para o sitio com o olhar ou com a mão. Por exemplo, eu entrego um livro a serviçal meu, e digo-lhe: Pegue nesse livro e ponha-o alli assim, apontando para o logar em que desejo ele fique. A ellipse do verbo com os adverbios de logar é peculiar do Norte do reino, e com os de tempo muito usual no Douro e Beira Alta. Dêste modo: eu estava aonde seu primo, significa: “j’était là, où était votre cousin“; Chegou a quando eu = “il est arrivé au même temps que moi“.

Está em Lisboa um Cabo-Verdiano11 que no Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa12 vae publicar uma grammatica crioula, em crioulo da Guiné e em português. F. Adolpho Coelho, eu e elle tivemos uma conferencia para se fixar a transcripção, que, comquanto não scientifica porque ella seria laboriosa para a composição typographica, creio que será sufficientemente clara, se o auctor seguir as indicações de Coelho e as minhas; oxallá que tambem as siga em outras partes da referida grammatica! A primeira sem razão é escrevê la em crioulo ficticio, em grande parte, mas não conseguimos dissuadi-lo dêsse proposito. Com referencia ao emprego dos accentos, é facto que ha uso [incoerente] e mesmo abuso nos que subministram os dados para o estudo dos crioulos portugueses; o signal ora indica a tonica, ora a qualidade, o timbre da vogal, conforme o modo de empregar os accentos graphicos em português, o qual é o seguinte em substancia:

á, é, ó, a, e, o abertos, (italianos)

ê, ô (e, o fechados, italianos)

â, a inglês de abode, o (2º) de nobody, quando acentuado; assim differençamos em Lisboa amâmos “nous aimons“, de amámos, “nous avons aimé“.

Além disso, como o e inicial se pronuncia quando atono em geral como i, e o o como u, teem por costume os dictos individuos marcá-los é, ó quando querem indicar que conservam o som alphabetico è, ò[.]

Parece-me por outro lado que é averiguado pronunciar-se o a final dos infinitos em crioulo como o â português, quando estão desacompanhados de pronomes enclíticos, como por exemplo neste modo-de-dizer proverbial, em que o â está em pausa Cábu qui nu contrâ, pacha ca ta nasêbu, que lembra o afamado dicto attribuido a Attila: “onde o meu cavallo assenta os pés, não nasce mais herva“.

Para tudo o que de mim quizer, creio-me sempre ao seu dispor, como de VEx.ª
amigo certo e enthusiastico admirador

Aniceto dos Reis Gonçalves Vianna


[1] Die Zeitschrift Revista Lusitana: Archivo de Estudos Philologicos e Ethnologicos relativos a Portugal wurde 1887 von José Leite de Vasconcelos gegründet.

[2] Siehe: Viana, Aniceto dos Reis Gonçalves. 1887-1889. ‘Materiais para o estudo dos dialectos portugueses‘. In Revista Lusitana I:158-166; 195-226; 310-319.

[3] Francisco Adolfo Coelho (1847-1919) korrespondierte ebenfalls mit Schuchardt [Korrespondenzpartner: 302].

[4] José Leite de Vasconcelos (1853-1913) korrespondierte ebenfalls mit Schuchardt [Korrespondenzpartner: 999].

[5] Vermutlich geht es hier um die Zeitschrift Grundriss der romanischen Philologie, die von Gustav Gröber zwischen 1888 und 1906 herausgegeben wurde.

[6] Gustav Gröber (1844-1911) korrespondierte ebenfalls mit Schuchardt [Korrespondenzpartner: 631].

[7] Viana, Aniceto dos Reis Gonçalves. 1887-1889. '[Rez. von:] Åke W. Munthe, Anteckningar om folkmålet i en trakt af vestra Asturien'. In Revista Lusitana I:279-285.

[8] Revista Lusitana.

[9] Munthe, Åke W. 1887. Anteckningar om folkmålet i en trakt af vestra Asturien. Upsala:Almqvist & Wiksell.

[10] Viana, Aniceto dos Reis Gonçalves. 1887-1889. ‘Materiais para o estudo dos dialectos portugueses‘. In Revista Lusitana I:158-166; 195-226; 310-319.

[11] Vermutlich sprich Gonçalves Viana von António de Paula Brito (1852-1894).

[12] Die Zeitschrift Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa wird seit 1876 durch die Sociedade de Geografia de Lisboa veröffentlicht.